quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Versão Brasileira?

Há alguns dias atrás rolou um show do Capital Inicial numa cidade próxima aqui de Dores de Campos e muitas pessoas, inlcusive amigos meus foram. Eu não fui pois mês que vem tem show do Pouca Vogal (Gessinger + Leindecker) e honestamente, esses dois estão num patamar musical muito superior ao que o Capital fez após o Acústico MTV. O povo daqui em geral ainda está com a febre "capital", que logo deverá ser superada pela febre do Jota Quest que em algumas semanas fará um show em São João del Rei.

Mas o que mais me intriga em algumas vezes é o desconhecimento das pessoas sobre algumas músicas cruciais na carreira de um artista. E mais ainda, será que o frontman da banda, Sr. Dinho Ouro Preto quer colher os louros da vitória sobre algo que não é dele, e nem a iniciativa foi dele?

Eu odeio até o fundo da minha alma a versão da música "À Sua Maneira" interpretada pelo Capital. Ah...você não sabia disso? Achou que a música era do Capital? Sinto muito.

"De Musica Ligera" é da banda argentina Soda Stereo, lançada em 1990 no álbum Canción Animal e foi eleita a quarta melhor música de rock latino da década de 90. A mesma música foi regravada em 1996, no álbum Nove Luas pelos Paralamas do Sucesso, com o mesmo nome e tradução mais próxima à letra original. O líder do Soda Stereo, Gustavo Cerati, é um parceiro de longa data de Herbert Viana, do Paralamas. O que o Capital fez foi adequar uma música ligeira à maneira deles. E, na minha opinião, cometeram um erro crasso. O Capital lançou "À Sua Maneira" em 2002 no álbum "Rosas e Vinho Tinto". 

Abaixo, para que vocês comparem, estão vídeos das três músicas, todas em suas versões de estúdio, para que as comparações sejam justas. Soda Stereo executando De Musica Ligera, o áudio do Paralamas no CD Nove Luas e o clipe do Capital Inicial tocando "À Sua Maneira". Em seguida, as letras em português comparadas ao original, em espanhol. E eu não vou comparar só porque o Paralamas canta "de música ligeira" no refrão, enquanto o Capital canta "à sua maneira". Mas para mostrar que certas coisas não deveriam nunca ser feitas.

Comparando as letras: "De Musica Ligera" (Soda Stereo) X "De Música Ligeira" (Paralamas do Sucesso)

Primeira Parte:
Ella durmió al calor de las masas
y yo desperté queriendo soñarla. 
Algún tiempo atrás pensé en escribirle
que nunca sortée las trampas del amor. 


Ela deitou, seu calor se espalhava
Eu despertei e ainda sonhava
Algum tempo atrás, escrevi numa carta
Que nunca escolhi as armas do amor


E então? Herbert e Cia adaptaram a letra não só pela fonética e pela métrica dos versos, mas também certas palavras traduzidas ao pé da letra não cairiam bem melodicamente, mas percebam que a essência da música permanece inalterada... Segundo o Michaelis, "masa" é mistura, volume, conjunto, massa e "trampa" é armadilha, artifício. Ou seja, as palavras usadas por Herbert Viana estão dentro do contexto lírico do original e ainda é uma música que fala do amor por alguém, mas não tem nada da pieguice romântica usual de muitas das canções dos anos 2000 lançada pelo Capital Inicial.

Segunda Parte:
No le enviaré cenizas de rosas, 
ni pienso evitar un roce secreto. 


Não lhe enviarei mentiras e rosas
Nem penso evitar o toque secreto

Aqui perdemos somente uma palavra: “cenizas” (cinzas) foi trocada por mentiras. Um diferença razoável, mas que em nada altera a música como um todo.

Refrão:
De aquel amor de música ligera
nada nos libra, nada más queda.


E daquele amor de música ligeira
Nada nos livra, nada mais resta.


Preciso falar alguma coisa?

Comparando as letras de “De Musica Ligera” (Soda Stereo) X “À Sua Maneira” (Capital Inicial)

Primeira Parte:
Ella durmió al calor de las masas
y yo desperté queriendo soñarla. 
Algún tiempo atrás pensé en escribirle
que nunca sortée las trampas del amor. 


Ela dormiu no calor dos meus braços
E eu acordei sem saber se era um sonho
Algum tempo atrás pensei em te dizer

Que eu nunca cai nas suas armadilhas de amor...

Vamos lá: o calor das massas, um calor que se espalha foi transformado no “calor dos meus braços”. Acordar sem saber se era um sonho enquanto o Soda ainda iria sonhar com ela. As armas e artifícios do amor expostas pelo Soda e Paralamas viraram joguinhos de música sertaneja com a palavra “armadilhas”. Assim, a música não fica densa com uma palavra forte (armas) e mais fácil para o povão inculto engolir.

Segunda Parte:
No le enviaré cenizas de rosas, 
ni pienso evitar un roce secreto. 

  
Não mandarei cinzas de rosas
Nem penso em contar os nossos segredos


Aqui, ponto para o Capital Inicial, que seguiu a letra original ao cantar as cinzas de rosas (mas também, talvez para ficar “diferente” da versão do Paralamas). Mas esse ponto ganho é perdido, deturpado e assassinado ao cantar “nem penso em contar os nossos segredos”. Quem falou em contar segredos??? A música ligeira é o amor passageiro, um amor fugaz, com a mesma duração da música” Não dá tempo de ter segredos a serem contados! O segredo é a relação rápida, um toque secreto que dá arrepios na pele e que ambos sabem do que se trata. Não tem segredo nenhum a ser contado Dinho!

Refrão (a pior parte):
De aquel amor de música ligera
nada nos libra, nada más queda.


Naquele amor à sua maneira
Perdendo o meu tempo a noite inteira...


Essa parte dispensa qualquer comentário. Simplesmente terrível. Não perco meu tempo ouvindo esta versão do Capital.

Aqui temos somente a comparação das letras. Quem tiver paciência e curiosidade abaixo estão as três músicas em suas versões originais. Para o Soda Stereo e Capital estão os clipes oficiais. A qualidade e produção dos vídeos não é passível de comparação, dada a diferença de 12 anos entre os respectivos lançamentos. O Paralamas nunca lançou clipe oficial para esta música.

(Preferi não incorporar os clipes dessa vez, para evitar um post extenso)

  


Xingamentos pelo meu radicalismo nos comentários em 3...2...1...

2 comentários:

Aline disse...

Belo estudo comparativo para os musicalmente desavisados! Eu, particularmente, não gosto de nenhuma das três versões...cada uma pior que a outra!rs (Agora eu é que vou levar xingo...kkkkkk). Odeio essas versões brasileiras mal feitas de músicas internacionais! Tô forçando aqui pra me lembrar de alguma q tenha ficado legal...Alguém se lembra? Vlw =D

Elaine disse...

Adoro Capital Inicial, mas admito que a versao nao foi boa idéia. Estou morando na Argentina, e aqui o autor da versao original é tido como um deus do rock,ele esta em coma, há alguns meses já. Acho que ele ouviu a versao do Capital Inicial para música dele e ficou doente de ódio! ( Desculpa a falta de "tios" e "c" cedilhas, é nos teclados daqui nao tem.